quarta-feira, 26 de abril de 2017

Volta ao Pico da Bandeira: tradição e desafio em torno de um símbolo nacional

Todos os anos, ciclistas de várias partes do Brasil se juntam para cumprir o desafio de percorrer o entorno do Parque Nacional do Caparaó em apenas 1 dia. Tradição já traz impactos positivos para o turismo da região.

  
É possível ver o Pico da Bandeira e Pico do Cristal em alguns pontos, ressaltados sobre a Serra do Caparaó.

Um símbolo nacional, diante da sua imponência, grandeza e belezas naturais que coleciona na sua área de parque e entorno, o Pico da Bandeira é o ponto mais alto da Região Sudeste, sendo o terceiro ponto mais alto do país. O geoide recebe muitos visitantes durante o período em que fica aberto à visitação, onde grupos sobem até o cume praticando o trekking, modalidade que é popularmente conhecida na região como as “escalaminhadas”. No ano de 1859, Dom Pedro II ordenou que fosse fixada uma bandeira do império, tendo a certeza que era o ponto mais alto do Brasil, daí surgiu o nome Pico da Bandeira.
É notório como o povo mineiro tem aptidão para tradições, principalmente as religiosas. Há pessoas que acham que tradição é algo antigo, no mínimo do século anterior. Contradizendo esse pensamento, a bicicleta que representa um tanto de avanços tecnológicos, tanto em materiais, geometria, física, mecânica, até mesmo na indústria química e também na farmacologia, é responsável por produzir novas tradições. Os circuitos turísticos são um bom exemplo disso, criando roteiros para que ciclistas possam se aventurar, onde muitos deles, ligados a histórias e colonizações, passam a ser tradicionais. Assim está acontecendo com a Volta ao Pico da Bandeira, que aponta dados de 1995 como a primeira vez que ciclistas percorreram seu entorno, sendo realizado em 3 dias.
Símbolo de conquista de desafios pessoais, o Pico da Bandeira transferiu esse sentimento a um grupo de ciclistas das cidades da região mineira da Serra do Caparaó, onde resolveram criar uma rota base, com perímetro de aproximadamente 160km, para percorrer em um só dia as principais localidades ao redor do Parque Nacional. Assim, em 2014, um pequeno grupo saiu da cidade de Manhumirim, em suas mountain bikes, e conseguiram completar a façanha. Com o passar dos anos, a tradição foi reconhecida por diversos grupos, os números de participantes foram crescendo, neste ano de 2017 chegaram a 96 ciclistas.
A pedalada inicia na cidade de Manhumirim, sempre da casa de José Rubens da Silva, que juntamente com sua família, dedica-se a promover um café regado a frutas, bolos e sucos para todos os participantes. A distância tem pequenas variações por conta de alguns caminhos alternativos que podem ser adotados, está em torno de 160km com uma altimetria acumulada de 2150m (medida em dispositivo GPS Garmin). A duração média de execução, incluindo pequenas paradas para alimentação é de 12 horas pedaladas. São percorridos em torno de 40% de vias asfaltadas durante o trajeto, que possui subidas íngremes em alguns pontos e algumas descidas longas, como de Caparaó para Alto Jequitibá, pelo leito da antiga linha de trem, que passa por um túnel próximo da localidade de Vista Bela, construído em 1914. O trajeto tem um número considerável de pontos de apoio como bares e mercearias, para quem deseja fazer a volta autoguiado. Não há marcação, ficando por conta do ciclista se guiar por dispositivos GPS ou aplicativos como Strava, Wikiloc ou View Ranger para smartphones.


Algumas igrejas ficam à beira da via e de algumas é possível avistar o Pico do Cristal e Pico da Bandeira.

Impacto no turismo
Durante o percurso da Volta ao Pico da Bandeira em dia único, em formato “desafio pessoal”, os participantes encontraram com outros dois grupos que estavam sendo operacionalizados por empresas de turismo. Um dos grupos, com mais de 60 participantes, saiu da cidade de Santa Marta – ES e estava executando um traçado quase igual ao proposto para o desafio, porém estavam passando por mais estradas de terra, parando em diversas cachoeiras e fazendas históricas, num total de 3 dias.

É um fato que demonstra o potencial da região, que antes consagrada para a prática do trekking, agora recebe o MTB como base para o turismo de braços abertos. Além da tradição criada, operações de cicloturismo já estão firmadas na lista de desejo de muitos ciclistas, com a finalidade de conhecer o entorno do Parque Nacional do Caparaó, pedalando.
Até mesmo comércios já têm adotado a bike como bandeira de mercado, como visto em uma cafeteria na cidade de Pedra Menina, onde ciclistas que chegam de bike não pagam o café, que por sinal é da região e de alta qualidade. Além de tudo, possuem uma linha de produtos dedicados à bike em exposição para venda.

A Cafeteria tem bicicletário e promoção para ciclista que chega de bike, não paga um pedido de café.

Na comunidade de Patrimônio da Penha, criada pelos hippies há cerca de 30 anos, em busca de um estilo de vida alternativo nas montanhas capixabas que fazem parte do complexo da Serra do Caparaó, um comerciante, proprietário de um restaurante, Francisco Coelho, comentou: “Os ciclistas já fazem diferença no faturamento do restaurante em épocas de feriados, principalmente. São muitos que passam por aqui, vindos de diversos lugares, tem também aqueles que começam e terminam suas pedaladas aqui na comunidade e utilizam o restaurante como ponto de referência. Tenho certeza que pousadas também já começaram a notar que ciclistas são interessantes como grupo consumidor”.


Restaurante em Patrimônio da Penha é ponto de referencia para ciclistas que passam ou que chegam à região.

Embora não seja um evento, mas sim uma pedalada formada por diversos grupos que se associam e chegam a montar o apoio de alimentação e veículo para resgate, o grupo base fica na cidade de Manhumirim – MG, onde não havia mais vagas em pousadas, nem mesmo na cidade vizinha, Alto Jequitibá, por conta dos ciclistas que se anteciparam e conseguiram suas reservas. Outros tiveram que acampar ou vieram no mesmo dia de cidades próximas. Ainda houve grupo que veio de motor home, como o caso da família Ponce, de Nova Friburgo. Victor Ponce é turismólogo e opera uma empresa familiar de turismo, e percebeu como a região foi impactada por conta da movimentação dos ciclistas. “Existe um movimento nacional no tratamento do ciclista em relação ao turismo. O ciclista tem um potencial de compra já estudado pelos órgãos e o esporte, principalmente o MTB, tem uma natureza relacionada ao desbravamento, conhecer novos lugares, e isso tudo é turismo, que tem que ser aproveitado ao máximo por quem trabalha no setor”, declarou Victor.
Os diversos grupos que participam da volta colocam carros para fazer apoio, além de um ônibus contratado para todos os participantes.

Sem idade, sem limites 

O desafio em apenas um dia já foi realizado por um senhor de 68 anos em 2016, Adhemar Duarte Monte Alto, que é de Governador Valadares, teto máximo de idade registrado até agora. Nesse ano de 2017 tivemos a presença do senhor Eduardo César Ponce, com 65 anos, de Nova Friburgo, como o “jovem mais idoso”. A idade mínima foi registrada por Kaio Rodrigues, de Muriaé, com apenas 13 anos de idade que completou o trajeto em 13 horas, considerando as paradas.

Kaio com apenas 13 anos concluiu o desafio apoiado por amigos.

Realização 
O desafio da Volta ao Pico da Bandeira é realizado anualmente no feriado de Tiradentes. Para quem desejar participar das próximas edições, basta procurar o grupo “Guerreiros das Montanhas” no Facebook.

Há um projeto de integração com grupos de ciclismo, entidades governamentais da região com a finalidade de promover uma rota instituída, conforme modelo já praticado por projetos conhecidos como Estrada Real, Vale Europeu, Costa Serra e Mar, entre outros. 

“A intenção é criar uma rota base, levantar outras rotas paralelas e de acesso a pontos turísticos, de forma que operadoras de cicloturismo possam vir pra região, aproveitar as belezas naturais e com isso, promover renda para os comércios ligados diretamente ao turismo”, comentou Guenael Dornelas, um dos envolvidos na organização da pedalada tradicional, morador da região no lado mineiro.
O sol nasce quando os ciclistas já estão percorrendo as dobras de montanhas da Serra do Caparaó, no caminho para Pequiá.


Os trechos asfaltados correspondem a 40 por cento do total do percurso e revelam belezas bucólicas da mesma maneira das estradas de terra.

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Texto e fotos: Eduardo Almeida
Contribuição: Amélia Demarque

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